Em
temporada pós-Oscar, ainda mais considerando um ano em que a maioria dos
candidatos era formada por filmes longos e de ritmo arrastado, é um alívio
poder voltar a se divertir sem compromisso. E divertir-se com Alfred Hitchcock
não é nenhum tipo de contradição, já que o chamado mestre do suspense sempre
foi dotado de um humor peculiaríssimo, porém muito eficiente. Hitchcock, o
filme – que não é e nunca pretendeu ser uma biografia do cineasta – nos leva a
partilhar um pouco desse senso de humor deliciosamente pervertido.
A
cena de abertura do longa já dá o tom de travessura do que virá a seguir, com
Anthony Hopkins falando de seu personagem no mesmo estilo do programa
televisivo que o popularizou. O recorte que o roteirista John McLaughlin (o
mesmo de Cisne Negro) faz na biografia de Hitch se concentra no período de
concepção de um dos maiores sucessos de sua carreira, Psicose. Ironicamente, Hitchcock
teve muita dificuldade para conseguir realizar este filme, já que todos
consideravam o projeto arriscado, deselegante e até mesmo de mau gosto. Seu filme
anterior havia sido Intriga Internacional e ninguém em Hollywood levava muita
fé nessa mudança de estilo. O fato de nós, espectadores, sabermos a dimensão mítica
que o filme alcançaria na posteridade é um toque de ironia a mais.
O
filme é saboroso de ser assistido não somente por suas falas carregadas de sarcasmo
e humor negro (em especial nos diálogos entre Hitchcock e a esposa Alma), mas
também graças ao acertado casting,
com destaque para a incrível performance de Helen Mirren como Alma Reville – a
mulher forte e determinada por trás do gênio. Já a atuação de Anthony Hopkins é
interessante de ser analisada justamente por aquilo que é apontado como falha
por alguns: o gestual e o sotaque exagerados aliados à maquiagem pouco
naturalista. O que se percebe é a opção por uma construção brechtiana, ou seja,
a ideia é que possamos entrever o ator por trás do personagem. O filme traz,
ainda, bons coadjuvantes como Tony Collette e Michael Stuhlbarg e um
presentinho para os marmanjos: Scarlett Johansson como Janet Leigh, com direito, inclusive, à cena do chuveiro. Outra
curiosidade é ver Ralph Macchio (ele mesmo, o Daniel-san de Karate Kid) numa
pequena participação. Deixo ao leitor o desafio de reconhecê-lo.
Ok,
o filme faz algumas escolhas duvidosas. Um bom exemplo disso são as conversas
imaginárias do cineasta com Ed Gein, o assassino que serviu de inspiração para
Norman Bates. Mas, de um modo geral, Hitchcock é um filme que se destaca por
seus aspectos positivos e que deve ser assistido dentro da lógica do que se
propõe a ser: uma bela homenagem a Hitch e um ótimo entretenimento para
todos nós. Para ser consumido sem contraindicações.




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