07/10/2014

Festival do Rio anuncia vencedores do Prêmio Felix

Rogéria em cena do documentário brasileiro De Gravata e Unha Vermelha

Aconteceu ontem à noite no Centro Cultural Banco do Brasil a cerimônia de entrega do prêmio Felix, criado este ano para contemplar os melhores filmes de conteúdo LGBT exibidos no Festival do Rio. O Prêmio Especial do Júri foi para o australiano Toda Terça-Feira, o de melhor documentário para o brasileiro De Gravata e Unha Vermelha e o de melhor ficção para o grego Xenia. Lembrando que, na edição deste ano, a curadoria da tradicional mostra Mundo Gay resolveu extingui-la, distribuindo os filmes de temática LGBT pelas demais mostras e criando o prêmio Felix.

06/10/2014

Mais Sombrio do que a Meia-Noite


Eis mais um filme de conteúdo perturbador em um Festival que está acabando com os nervos dos cinéfilos. Embora possua suas pequenas falhas como produto cinematográfico – o que é totalmente compreensível para um primeiro filme – este Mais Sombrio do que a Meia-Noite se impõe e conquista pela força devastadora desta trama dolorida sobre a morte da inocência.

O filme, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes deste ano, acompanha a jornada em busca de identidade de Davide, um garoto siciliano de 14 anos e aparência andrógina. Constantemente confundido com uma menina e reprimido pelo pai, um dia ele decide não voltar mais para casa e se refugia junto a um grupo de meninos que se reúne em busca de clientes e diversão em um parque público de Catania. Davide sente-se compreendido e aceito pela primeira vez, mas logo descobrirá que viver a plena liberdade nas ruas tem o seu preço.  

A beleza exótica e a expressão marcante do menino Davide Capone certamente contribuem bastante para o impacto deste filme, que retrata de modo cruel temas como ruptura familiar, incompreensão, exploração de menores e tantos outros. A abordagem do filme é impactante, porém nunca sensacionalista, contrapondo momentos extremamente pungentes de uma vida marginalizada com outros pontuados pelo afeto e amizade entre os meninos. O filme conta, ainda, com uma participação afetiva da estrela Micaela Ramazzotti como a mãe com doença degenerativa. Belíssima a cena do reencontro de mãe e filho nas ruas.

Mais Sombrio do que a Meia-Noite (Più Buio di Mezzanotte), de Sebastiano Riso. Com Davide Capone, Vincenzo Amato, Lucia Sardo Laurier, Pippo Delbono, Micaela Ramazzotti. Ita, 2014. 94’. Expectativa 2014.


04/10/2014

The Face of an Angel


É decepcionante ver um cineasta com uma carreira consistente como Michael Winterbottom realizar uma bobagem dessas. Tomando como ponto de partida um crime real que ocorreu na cidade de Perugia em 2007, Winterbottom desloca a trama para Siena (outra cidade italiana conhecida como polo universitário de estudantes estrangeiros) e cria uma ficção metalinguística em cima do ocorrido. O protagonista aqui é um cineasta que pretende realizar um longa inspirado no assassinato de uma estudante inglesa e do circo que se criou em torno do julgamento dos suspeitos, ou seja, a amiga com quem a vítima morava e seu namorado.

O filme já deixa claro seu tom arrogante e preconceituoso quando um dos personagens diz ao protagonista que ele deveria “fazer ficção para poder falar a verdade”. A partir daí o que vemos é um longo ataque de Winterbottom ao sistema judiciário local e uma verdadeira dissertação sobre o quanto todos os italianos de modo geral seriam burros, incompetentes e/ou corruptos. Cabe ressaltar que o filme não fala da inépcia da polícia e do judiciário neste caso em particular: o tom é o de olhar de maneira superior todo o funcionamento do país, chegando a colocar na boca de personagens frases reducionistas como “aqui a justiça é diferente”.

A pequena cidade de Siena é transformada em uma sin city desvairada, cheia de ângulos escuros e tentações irresistíveis. As pessoas mal chegam e no dia seguinte já estão afundadas em orgias e carreiras de cocaína. Tudo isso entremeado por citações aleatórias de Dante Alighieri. Pobre poeta, usado para abalizar uma série de metáforas rasas de um filme que, na verdade, não tem absolutamente nada de relevante a dizer. Sério, Mr. Winterbottom?

Lamentável que dois atores admiráveis como Daniel Brühl e Valerio Mastandrea tenham se envolvido em um projeto desses.

The Face of an Angel (idem), de Michael Winterbottom. Com Kate Beckinsale, Daniel Brühl, Cara Delevingne, Valerio Mastandrea. UK/Ita/Esp, 2014. 100’. Panorama do Cinema Mundial




Homens, Mulheres e Filhos


Muito já foi dito sobre as facilidades e armadilhas de um mundo excessivamente conectado, no qual as pessoas deixam que estranhos tenham acesso à sua intimidade de um modo que não deixariam na vida real. O argumento proposto por Jason Reitman em seu mais recente filme, embora esteja longe de ser novo, é desenvolvido de maneira envolvente e muito relevante.

Com uma estrutura multiplot, acompanhamos um grupo de jovens do ensino médio, seus pais e as diferentes reações de cada um deles aos novos modelos sociais regidos pela internet. Enquanto a mãe de Hanna é permissiva a ponto de deixar a filha se expor em um site que beira a criminalidade, a de Brandy é obcecada em monitorar cada minuto do dia da filha, rastreando exaustivamente suas mensagens e seus perfis de redes sociais. Don encontra na pornografia uma válvula de escape, mas se assusta ao descobrir os mesmos hábitos no filho de 15 anos. Já Kent não entende como Tim pode preferir jogos virtuais ao time da escola.

Através de personagens em busca de afirmação, afeto ou identidade, sejam pais ou filhos, o roteiro discute os dois lados da moeda de tudo que se pode obter com um simples clique. Parece muito difícil para os personagens encontrar o equilíbrio correto entre uma cruzada burra contra o inevitável uso da tecnologia e a desatenção que pode desencadear uma exposição indesejada. Afinal de contas, como lidar com algo que nem mesmo a legislação regula corretamente?

Depois de realizar um longa anterior muito abaixo de seu habitual padrão de qualidade, Jason Reitman volta à boa forma com esta trama bastante atual. É preciso, ainda, parabenizar a sua direção de atores. Reitman é tão bom que consegue fazer uma limonada de limões como Adam Sandler e Jennifer Garner.

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women & Children), de Jason Reitman. Com Kaitlyn Dever, Rosemarie DeWitt, Ansel Elgort, Jennifer Garner, Judy Greer. EUA, 2014. 116’. Panorama do Cinema Mundial



02/10/2014

Garota Exemplar


Logo após uma série de exibições no Festival do Rio, eis que Garota Exemplar entra em circuito comercial hoje. O novo filme de David Fincher é uma transposição fidelíssima do best seller homônimo de Gillian Flynn, adaptado para as telas pela própria autora. Quem já leu sabe o quanto o livro é envolvente, sarcástico e absolutamente viciante. Sem contar que o tom já é tão cinematográfico nas páginas de Flynn que diálogos inteiros foram levados para a tela inalterados.

A trama, na superfície, é um thriller sobre uma mulher que desaparece misteriosamente de casa no dia que completaria cinco anos de casamento. Amy Dunne tem uma vida invejável: é linda, inteligente e famosa, já que seus pais escrevem livros infantis inspirados nela. À primeira vista, sinais de luta na cena do crime sugerem um sequestro, mas logo a polícia começa a suspeitar do marido, Nick, conforme surgem pistas contraditórias e a imagem anterior de um casamento perfeito vai desmoronando. A essa altura, o circo da mídia está armado e a opinião pública exerce grande influência sobre a investigação. Mas o que terá realmente acontecido com Amy? Seria Nick um mentiroso ou um homem injustamente perseguido?

Em uma camada mais profunda, Garota Exemplar trata de outros temas sobre os quais não é possível discorrer aqui sem cometer spoilers. O que podemos dizer é que Fincher realiza uma adaptação bastante fiel e eficiente, ao contrário do que tinha feito no remake de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, quando efetuou mudanças para pior na concepção dos personagens. Com um ritmo intenso e uma série de viradas surpreendentes, o filme prende a atenção de tal forma que sua longa duração passa sem que se perceba. Também é um alívio notar que o profundo tom de ironia que é o diferencial da trama foi em grande parte mantido. Por fim, o elenco foi bem escolhido, com destaque para Rosamund Pike em seu primeiro papel de peso. Até mesmo Ben Affleck – ótimo diretor, mas extremamente limitado como ator – encaixa como uma luva neste papel, já que Nick é descrito justamente como um cara meio pateta que não sabe expressar direito suas emoções.

Resumindo, Garota Exemplar é um belo thriller que tem de tudo para virar cult.

Garota Exemplar (Gone Girl), de David Fincher. Com Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry. EUA, 2014. 145’. Panorama do Cinema Mundial


01/10/2014

Whiplash – Em Busca da Perfeição


Andrew tem 19 anos, estuda em um conservatório e tem um único objetivo na vida: tornar-se uma lenda na bateria. Determinado a atingir a perfeição, pratica diariamente. Mas a pressão que ele impõe a si mesmo não é nada diante da que passa a sofrer depois de ser escolhido para participar da prestigiada banda de jazz da escola, conduzida pelo temido Terence Fletcher, famoso por forçar seus músicos aos limites de exaustão física e mental. Até onde vai o perfeccionismo antes de resvalar na loucura? O filme venceu o último Sundance Film Festival 2014.

A princípio parece uma história edificante sobre um músico determinado e o maestro rigoroso que, com seus métodos pouco ortodoxos, o empurrará rumo à excelência. Logo percebemos que (felizmente) a tônica do filme não é exatamente essa. Ao contrário do que sugere o subtítulo em português, interessa mais ao roteiro deste Whiplash falar de limites e obsessão do que de perfeição. Fletcher – interpretado com som e fúria pelo ótimo J. K. Simmons – é abusivo, cruel e faz do bullying um método de trabalho. O interessante é que tampouco o jovem Andrew se enquadra do perfil do mocinho, já que também ele sabe ser arrogante sempre que tem uma oportunidade. Uma abordagem semelhante à feita em filmes como Shine e Cisne Negro.

Este é o segundo longa de Damien Chazelle, que escreveu e dirigiu o filme tendo como ponto de partida seu curta homônimo. Com apenas 29 anos, Chazelle mostra competência de veterano e entrega um trabalho vigoroso e lindamente realizado sob todos os aspectos – a sequência final é para aplaudir de pé.

Whiplash – Em Busca da Perfeição (Whiplash), de Damien Chazelle. Com Miles Teller, J.K. Simmons. EUA, 2013. 105’. Panorama do Cinema Mundial