18/09/2014

Delírio & Vertigem


Acaba de estrear no Rio para curtíssima temporada o espetáculo Delírio & Vertigem. Com direção e roteiro de Rita Clemente e onze atores no elenco, a trupe mineira se debruça sobre a dramaturgia do carioca Jô Bilac (mesmo autor dos elogiados Cachorro! e Rebu) e constrói um variado painel das relações humanas com um tom bastante pautado pelas sensações do título.

As treze minitramas que compõem o espetáculo sempre surpreendem pelo inusitado e pela provocação que, em diversos momentos, flerta com o teatro do absurdo. São tragédias rodrigueanas que despontam em meio ao cotidiano, desbundes carnavalescos que são levados para a vida real, rompantes de superficialidade que provocam risos nervosos na plateia e, quando menos se espera, até mesmo uma tocante declaração de amor. Não faltam referências cinematográficas, metalinguagem, intertextualidade e muitas cutucadas sarcásticas nos relacionamentos modernos. Um exemplo disso é o trecho Las Vegas, no qual pessoas que acabaram de se conhecer marcam um casamento como quem combina um programa qualquer. A pitada extra de ironia está no modo como a situação se repete ao longo da peça.

Também vale destacar o dinamismo da montagem e o modo como os atores ocupam o espaço cênico, com cenas que se entrecruzam e personagens de diferentes núcleos que se esbarram sem que haja uma separação definida de cenário. O elenco é coeso e possui excelente timing, o que fica ainda mais interessante quando diferentes atores assumem o mesmo papel. O cenário é simples e funcional e os figurinos são criativos, permitindo que cenas sejam rearranjadas com muita rapidez.

O espetáculo estreou em Belo Horizonte em 2012, como resultado do projeto Oficinão de reciclagem de atores do Galpão Cine Horto. Aqui no Rio de Janeiro, a temporada vai até 28 de setembro na Caixa Cultural (Av. Almirante Barroso, 25), de terça a domingo, sempre às 19h. Ingressos a R$ 16,00.

15/09/2014

Confira as atrações do Festival do Rio

Ben Affleck em uma cena de Garota Exemplar, de David Fincher

A organização do Festival do Rio acaba de divulgar uma primeira lista de atrações já confirmadas. Dentre mais de 350 filmes, vindos de 60 países, destacam-se produções bastante aguardadas, como Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg, Boyhood, de Richard Linklater, Garota Exemplar, de David Fincher, Mommy de Xavier Dolan, e Hungry Hearts, de Saverio Costanzo. Para conferir a lista completa, clique aqui.

05/09/2014

Stephen Daldry virá ao Festival do Rio


Foi anunciada a produção de encerramento do próximo Festival do Rio: trata-se de Trash – A Esperança Vem do Lixo, do britânico Stephen Daldry – diretor de Billy Elliot, As Horas e O Leitor. O cineasta já confirmou presença no tapete vermelho da première do dia 7 de outubro, que provavelmente este ano terá como palco o Cinépolis Lagoon. O longa foi todo rodado no Rio de Janeiro e conta com Martin Sheen, Rooney Mara, Selton Mello e Wagner Moura no elenco. A trama é centrada em três meninos que vivem diversas aventuras por conta de uma carteira encontrada no lixão onde vivem. O filme entra em circuito logo após o término do Festival, no dia 9 de outubro.

04/09/2014

Se Eu Ficar


O tema do grande amor interrompido pela morte ou doença de um dos apaixonados costuma ser garantia de sucesso desde Love Story e seu “amar é nunca ter que pedir perdão”. Como na sétima arte nada se perde e tudo se recicla, esse tipo de melodrama tem retornado às telas com força total, ainda que ultimamente direcionado a um público ainda mais jovem. Só este ano já tivemos A Culpa é das Estrelas e agora este Se Eu Ficar, que ainda aproveita para pegar uma parcela do público dos filmes espíritas.

Baseado no romance da americana Gayle Forman, que também está sendo lançado aqui no Brasil, o filme conta a história de Mia, uma tímida violoncelista de dezessete anos que aguarda ansiosamente sua aceitação na renomada escola de arte Juilliard. Caso consiga, sua vida mudará radicalmente e ela terá que tomar difíceis decisões. Porém, antes de saber o resultado da audição, Mia sai com a família de carro e sofre um violento acidente que a deixa em coma. De alguma forma, ela sai do próprio corpo e consegue transitar pelos corredores do hospital, embora não possa se comunicar com ninguém. A partir daí, a trama se desenvolve entre a realidade e flashbacks onde ela relembra a vida em família, a descoberta do amor e seu envolvimento com a música clássica.

O filme se sustenta a partir da crença de que uma pessoa em coma pode circular fora do próprio corpo, ainda que a personagem não consiga se afastar do hospital nem atravessar portas ou paredes. O outro pilar da história seria o de que caberia muito mais ao próprio paciente, independentemente dos cuidados médicos, a decisão definitiva de morrer ou lutar pela vida – daí o título do livro/filme. O que equivale a dizer que toda a trama e os conflitos do filme são, na verdade, decisões internas, memórias e pensamentos da protagonista.


O cinema já lidou muitas outras vezes com questões metafísicas e certamente não é preciso estar de acordo com elas para apreciar um filme, mesmo porque existe a chamada suspensão de descrença, ou seja, o espectador “compra” uma ideia e decide acreditar nela. A questão aqui não é filosófica e sim dramatúrgica. Enquanto o livro tem o mérito de apresentar personagens tridimensionais, no filme eles são bastante rasos. Como se Mia e sua família fossem protagonistas de uma peça publicitária ou filme institucional, com uma mensagem bem definida a passar. Sem contar que a produção sacrifica a humanidade da protagonista em favor de uma visão exageradamente adocicada. A representação de Mia como menina tímida e certinha chega a interferir no figurino de Chloë Grace Moretz, que usa uma roupa leve e cheia de rendinhas para sair em um dia de neve.

Também as cenas em flashback – que têm como função mostrar como foi a vida de Mia até aquele instante – carregam todos os clichês imagináveis: a garota retraída com pais moderninhos que chama a atenção do carinha descolado da escola justamente por ser diferente, os hesitantes primeiros encontros, o jantar em família, os inevitáveis conflitos e discussões bobas, sendo a pior delas quando ela esconde dele algo que fatalmente viria à tona, etc. Tudo muito previsível, do começo ao fim. Chloë Grace Moretz é uma gracinha, mas precisa começar a escolher melhor seus trabalhos. Indicado para adolescentes ou aficionados com temas como experiência de quase morte ou viagens para fora do corpo.  

03/09/2014

Festival do Rio divulga filmes nacionais selecionados


A Première Brasil deste ano vai exibir um total de 69 produções (41 longas e 28 curtas), de diretores estreantes e veteranos vindos de todas as partes do país. A novidade é a inclusão de duas novas categorias na premiação: melhor direção para documentário e Prêmio especial do Júri para Novos Rumos. O público participa através do voto popular nas categorias ficção, documentário e curta. O Festival do Rio este ano será de 24 de setembro a 8 de outubro. Confiram abaixo todos os filmes selecionados: 

Mostra Competitiva

Longas Ficção
1. Ausência, de Chico Teixeira (SP)
2. Casa Grande, de Fellipe Barbosa (RJ)
3. Love Film Festival, de Manuela Dias (RJ)
4. O Fim De Uma Era, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti (RJ)
5. O Fim e os Meios, de Murilo Salles (RJ)
6. O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum (SP)
7. Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho (DF)
8. Obra, de Gregorio Graziosi (SP) 
9. Prometo um dia deixar essa cidade, de Daniel Aragão Brasil (PE)
10. Sangue Azul, de Lírio Ferreira (SP)

Longas Documentário
1. À Queima Roupa, de Theresa Jessouroun (RJ)
2. A Vida Privada dos Hipopótamos, de Maíra Bühler e Matias Mariani (SP)
3. Campo de Jogo, de Eryk Rocha (RJ)
4. Esse Viver Ninguém me Tira, de Caco Ciocler (DF)
5. Favela Gay, de Rodrigo Felha (RJ)
6. Meia Hora E As Manchetes Que Viram Manchete, de Angelo Defanti (RJ)
7. My Name is Now, Elza Soares, de Elizabete Martins Campos (MG)
8. O Estopim, de Rodrigo Mac Niven (RJ)
9. Porque Temos Esperança, de Susanna Lira (RJ)
10. Samba & Jazz, de Jefferson Mello (RJ)

Curtas em Competição
1. Cine Paissandu: Histórias de uma Geração, de Christian Jafas (RJ) 
2. E o amor foi se tornando cada dia mais distante, de Alexander de Moraes (RJ)
3. Mater Dolorosa, de Tamur Aimara e Daniel Caetano (RJ) 
4. Cloro, de Marcelo Grabowsky (RJ) 
5. Barqueiro, de José Menezes e Lucas Justiniano (SP) 
6. Outono, de Anna Azevedo, (RJ) 
7. O Clube, de Allan Ribeiro (RJ 
8. Edifício Tatuapé Mahal, de Carolina Markowicz e Fernanda Salloum (SP) 
9. Menino da Gamboa, de Pedro Perazzo e Rodrigo Luna (BA) 
10. Diário de Novas Lembranças, de João Pedro Oct (SP) 
11. Historia Natural, de Julio Cavani (PE) 
12.
The Yellow Generation, de Daniel Sake (RJ) 
13. Kyoto, de Deborah Viegas (SP) 
14.
Loja de Répteis, de Pedro Severien (PE) 
15. Max Uber, de Andre Amparo (MG)
16. Sem Título # 1: Dance of Leitfossil, de Carlos Adriano (SP)

Mostra Novos Rumos

Longas
1. A Revolução do Ano, de  Diogo Faggiano (SP)
2. Castanha, de Davi Pretto (RS)
3. Deserto Azul, de Eder Santos (MG)
4. Hamlet, de Cristiano Burlan (SP)
5. Permanência, de  Leonardo Lacca (PE)
6. Seewatchlook o que você vê quando olha o que enxerga?, de  Michel Melamed (RJ)
7. Tudo vai ficar da cor que você quiser, de Letícia Simões (RJ)

Curtas
1. A Deusa Branca, de Alfeu França (RJ) 
2. Indícios 3 - quanto tempo a gente precisa ficar andando no mesmo lugar para dar um passo, de Dannon Lacerda (RJ) 
3. La Llamada, de Gustavo Vinagre (SP) 
4. O Bom Comportamento, de Eva Randolph (RJ) 
5. O Rei, de Larissa Figueiredo (PR) 
6. Tenho um dragão que mora comigo, de Wislan Esmeraldo, (CE)

Filmes Fora De Competição - Hors Concours

Ficção - longas

1. A Luneta Do Tempo , de Alceu Valença (PE)
2. Boa Sorte, de Carolina Jabor (RJ)
3. El Ardor, de Pablo Fendrik (RJ)
4. Infância, de Domingos Oliveira (RJ)
5. Trinta, de Paulo Machline (SP)

Documentário - longas
1. Brincante, de Walter Carvalho (SP)
2. Cássia, de Paulo Henrique Fontenelle (RJ)

Curtas 
1. Compêndio, de Eugenio Puppo e Ricardo Carioba (SP 
2. Pé sem chão, de Sérgio Ricardo (RJ) 

Mostra Retratos

Longas

1. O Vento Lá Fora, de Marcio Debellian (RJ)
2. De Gravata e Unha Vermelha, de Miriam Chnaiderman (SP)
3. Guardiões do Samba, de Eric e Marc Belhassen (SP)
4. Ídolo, de Ricardo Calvet (RJ)
5. Para Sempre Teu Caio F., de Cande Salles (RJ)

Curtas
1. Andrea Tonacci, de Rodrigo Grota (PR)
2. Araca - O Samba em Pessoa, de Aleques Eiterer (RJ) 
3. Caetana, de Felipe Nepomuceno (RJ) 
4. Nora, de Gabriel Mendes e Fernando Munõz (RJ)

Filmes Brasileiros em Outras Mostras do Festival
Mostra Expectativa: Na Quebrada, de Fernando Grostein Andrade (SP)

Mostra Geração: Encantados, de Tizuka Yamasaki (RJ)

27/08/2014

Magia ao Luar


Woody Allen é um sujeito espantoso. Desde o início da sua carreira, vem entregando um novo filme a cada ano, com raras exceções – na verdade, o último ano em que ele deixou de lançar um filme foi 1981. Do alto dos seus 79 anos, o cineasta nova-iorquino mantém a vitalidade e a alegria de filmar. Naturalmente, com tal média nem todos os seus trabalhos podem ser geniais. Pois bem. Depois do furacão Blue Jasmine, é a vez do pálido Magia ao Luar.

Ambientado nas paisagens bucólicas do sul da França e nos charmosos anos 20, a trama gira em torno de Stanley, um grande mestre do ilusionismo que é famoso também por desmascarar charlatães e falsos profetas. Convidado por um velho amigo a usar suas habilidades para livrar uma rica família da influência nociva de uma jovem médium, Stanley parte cheio de certezas e logo começa a se sentir-se perdido, à medida que examina de perto a moça e não consegue refutar suas impressionantes demonstrações psíquicas. Teria ele se enganado a vida inteira?

Woody Allen tem uma série de temas recorrentes, isso não chega a ser uma surpresa e muito menos um problema. O que decepciona aqui é o modo como tudo parece uma cópia desbotada de situações e personagens mostrados com mais graça em outros filmes do próprio Allen. A trama é o máximo da previsibilidade, embora seja interessante a correlação entre os truques de mágica e as ilusões que cada um aceita de bom grado para a própria vida. O roteiro fica no meio do caminho, pois não tem nem o sarcasmo demolidor de Blue Jasmine e nem o romantismo irresistível de Meia-Noite em Paris. E para um filme que tem magia no título, não encantar o espectador é pecado grave.


Colin Firth é ótimo ator e faz o que pode para segurar as pontas com seu personagem arrogante e cabeça-dura, mas tem pouco apoio à sua volta, já que precisa contracenar com uma Emma Stone afetadíssima e caricata e um elenco coadjuvante sem brilho. Contudo, o filme não chega a ser desagradável de se assistir. Woody Allen, ainda assim, consegue rechear o vazio da trama com belas paisagens, boa música, direção de arte caprichada e uma ou outra tirada divertida. Se o cineasta realmente vem intercalando seus grandes filmes com outros dispensáveis, a boa notícia é que o próximo será melhor. Aguardemos e torçamos para que assim seja.