25/11/2014

Sétimo


O recém-divorciado advogado Sebastián tem um jogo recorrente com os filhos sempre que vai buscá-los na casa de ex-esposa: ele pega o elevador no sétimo andar enquanto as crianças tentam chegar antes, descendo pelas escadas. A brincadeira vira drama no dia em que ele chega ao térreo, mas Luca e Luna não vêm correndo a seguir. Como podem duas crianças desaparecer dentro do prédio onde moram sem deixar vestígios?

Esse filme é a prova inequívoca de que mesmo um ator que escolhe cuidadosamente seus papéis pode errar feio. Apesar de protagonizado pelo muso absoluto do cinema portenho, Ricardo Darín, Sétimo é tão banal e sem vitalidade que nem mesmo um ator do calibre de Darín consegue salvá-lo. O roteiro tenta ser engenhoso e criar reviravoltas, mas é pouco convincente e falha em estabelecer qualquer tipo de tensão ou suspense. A trama oscila entre o óbvio e o mal explicado, culminando em uma resolução forçada e sem brilho.

Coprodução entre Argentina e Espanha, o filme também traz no elenco a atriz Belén Rueda, de O Orfanato. Esperemos que Belén e Darín tornem a trabalhar juntos em condições mais favoráveis.

23/10/2014

Relatos Selvagens


Estreia hoje o surpreendente e divertido Relatos Selvagens, mais uma bola dentro do sempre relevante cinema argentino. O filme, que foi exibido no Festival de Cannes, se divide em seis episódios. Em cada um deles há pelo menos um personagem que perde completamente o controle. Os motivos são os mais diversos: uma mulher diante do homem que levou seu pai ao suicídio, um xingamento de trânsito levado às últimas consequências, o sentimento de impotência do cidadão perante a burocracia e a corrupção estatal, uma noiva que descobre a traição do amado durante a festa de casamento, e por aí vai. 

A trama busca apresentar situações com as quais o público pode facilmente se identificar e certamente quem já passou por algo parecido teve pensamentos bem violentos a respeito. O que os personagens fazem é transformar tais instintos primitivos do ser humano em ações concretas, potencializando o efeito catártico do cinema. O roteiro poderia ter seguido o caminho do drama, mas em vez disso espertamente optou pelo tom de humor negro. O resultado final é uma delícia de se ver. Especialmente bom é o pesadelo kafkiano protagonizado por Ricardo Darín, contundente em sua pesada crítica às instituições – que na tela são argentinas, mas o espectador brasileiro se verá perfeitamente representado.

Vale muito a pena conferir esse novo exemplar do cinema dos hermanos, ainda mais pelo fato do longa ser o representante argentino para pleitear uma vaga na corrida ao Oscar 2015 de melhor filme em língua estrangeira. Podemos dizer que é uma candidatura bastante ousada, esperemos para ver como será recebida pela Academia. 

07/10/2014

Festival do Rio anuncia vencedores do Prêmio Felix

Rogéria em cena do documentário brasileiro De Gravata e Unha Vermelha

Aconteceu ontem à noite no Centro Cultural Banco do Brasil a cerimônia de entrega do prêmio Felix, criado este ano para contemplar os melhores filmes de conteúdo LGBT exibidos no Festival do Rio. O Prêmio Especial do Júri foi para o australiano Toda Terça-Feira, o de melhor documentário para o brasileiro De Gravata e Unha Vermelha e o de melhor ficção para o grego Xenia. Lembrando que, na edição deste ano, a curadoria da tradicional mostra Mundo Gay resolveu extingui-la, distribuindo os filmes de temática LGBT pelas demais mostras e criando o prêmio Felix.

06/10/2014

Mais Sombrio do que a Meia-Noite


Eis mais um filme de conteúdo perturbador em um Festival que está acabando com os nervos dos cinéfilos. Embora possua suas pequenas falhas como produto cinematográfico – o que é totalmente compreensível para um primeiro filme – este Mais Sombrio do que a Meia-Noite se impõe e conquista pela força devastadora desta trama dolorida sobre a morte da inocência.

O filme, exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes deste ano, acompanha a jornada em busca de identidade de Davide, um garoto siciliano de 14 anos e aparência andrógina. Constantemente confundido com uma menina e reprimido pelo pai, um dia ele decide não voltar mais para casa e se refugia junto a um grupo de meninos que se reúne em busca de clientes e diversão em um parque público de Catania. Davide sente-se compreendido e aceito pela primeira vez, mas logo descobrirá que viver a plena liberdade nas ruas tem o seu preço.  

A beleza exótica e a expressão marcante do menino Davide Capone certamente contribuem bastante para o impacto deste filme, que retrata de modo cruel temas como ruptura familiar, incompreensão, exploração de menores e tantos outros. A abordagem do filme é impactante, porém nunca sensacionalista, contrapondo momentos extremamente pungentes de uma vida marginalizada com outros pontuados pelo afeto e amizade entre os meninos. O filme conta, ainda, com uma participação afetiva da estrela Micaela Ramazzotti como a mãe com doença degenerativa. Belíssima a cena do reencontro de mãe e filho nas ruas.

Mais Sombrio do que a Meia-Noite (Più Buio di Mezzanotte), de Sebastiano Riso. Com Davide Capone, Vincenzo Amato, Lucia Sardo Laurier, Pippo Delbono, Micaela Ramazzotti. Ita, 2014. 94’. Expectativa 2014.


04/10/2014

The Face of an Angel


É decepcionante ver um cineasta com uma carreira consistente como Michael Winterbottom realizar uma bobagem dessas. Tomando como ponto de partida um crime real que ocorreu na cidade de Perugia em 2007, Winterbottom desloca a trama para Siena (outra cidade italiana conhecida como polo universitário de estudantes estrangeiros) e cria uma ficção metalinguística em cima do ocorrido. O protagonista aqui é um cineasta que pretende realizar um longa inspirado no assassinato de uma estudante inglesa e do circo que se criou em torno do julgamento dos suspeitos, ou seja, a amiga com quem a vítima morava e seu namorado.

O filme já deixa claro seu tom arrogante e preconceituoso quando um dos personagens diz ao protagonista que ele deveria “fazer ficção para poder falar a verdade”. A partir daí o que vemos é um longo ataque de Winterbottom ao sistema judiciário local e uma verdadeira dissertação sobre o quanto todos os italianos de modo geral seriam burros, incompetentes e/ou corruptos. Cabe ressaltar que o filme não fala da inépcia da polícia e do judiciário neste caso em particular: o tom é o de olhar de maneira superior todo o funcionamento do país, chegando a colocar na boca de personagens frases reducionistas como “aqui a justiça é diferente”.

A pequena cidade de Siena é transformada em uma sin city desvairada, cheia de ângulos escuros e tentações irresistíveis. As pessoas mal chegam e no dia seguinte já estão afundadas em orgias e carreiras de cocaína. Tudo isso entremeado por citações aleatórias de Dante Alighieri. Pobre poeta, usado para abalizar uma série de metáforas rasas de um filme que, na verdade, não tem absolutamente nada de relevante a dizer. Sério, Mr. Winterbottom?

Lamentável que dois atores admiráveis como Daniel Brühl e Valerio Mastandrea tenham se envolvido em um projeto desses.

The Face of an Angel (idem), de Michael Winterbottom. Com Kate Beckinsale, Daniel Brühl, Cara Delevingne, Valerio Mastandrea. UK/Ita/Esp, 2014. 100’. Panorama do Cinema Mundial




Homens, Mulheres e Filhos


Muito já foi dito sobre as facilidades e armadilhas de um mundo excessivamente conectado, no qual as pessoas deixam que estranhos tenham acesso à sua intimidade de um modo que não deixariam na vida real. O argumento proposto por Jason Reitman em seu mais recente filme, embora esteja longe de ser novo, é desenvolvido de maneira envolvente e muito relevante.

Com uma estrutura multiplot, acompanhamos um grupo de jovens do ensino médio, seus pais e as diferentes reações de cada um deles aos novos modelos sociais regidos pela internet. Enquanto a mãe de Hanna é permissiva a ponto de deixar a filha se expor em um site que beira a criminalidade, a de Brandy é obcecada em monitorar cada minuto do dia da filha, rastreando exaustivamente suas mensagens e seus perfis de redes sociais. Don encontra na pornografia uma válvula de escape, mas se assusta ao descobrir os mesmos hábitos no filho de 15 anos. Já Kent não entende como Tim pode preferir jogos virtuais ao time da escola.

Através de personagens em busca de afirmação, afeto ou identidade, sejam pais ou filhos, o roteiro discute os dois lados da moeda de tudo que se pode obter com um simples clique. Parece muito difícil para os personagens encontrar o equilíbrio correto entre uma cruzada burra contra o inevitável uso da tecnologia e a desatenção que pode desencadear uma exposição indesejada. Afinal de contas, como lidar com algo que nem mesmo a legislação regula corretamente?

Depois de realizar um longa anterior muito abaixo de seu habitual padrão de qualidade, Jason Reitman volta à boa forma com esta trama bastante atual. É preciso, ainda, parabenizar a sua direção de atores. Reitman é tão bom que consegue fazer uma limonada de limões como Adam Sandler e Jennifer Garner.

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women & Children), de Jason Reitman. Com Kaitlyn Dever, Rosemarie DeWitt, Ansel Elgort, Jennifer Garner, Judy Greer. EUA, 2014. 116’. Panorama do Cinema Mundial